Entre a nostalgia oitentista do Kid Abelha e a bossa do cotidiano paulistano, o cantor e compositor DIMAS inaugura oficialmente o capítulo mais maduro de sua trajetória. O single “cinema tropical” chega não apenas como um novo lançamento, mas como um manifesto estético que prepara o terreno para “baby blue“, seu aguardado próximo álbum de estúdio. Navegando por paisagens urbanas e memórias afetivas da capital paulista, o artista transforma a efemeridade dos afetos contemporâneos em uma experiência sonora envolvente e sofisticada.
A faixa atua como uma ponte estratégica entre o pop que o consagrou e a transição definitiva para a MPB. Ao resgatar a elegância dos arranjos de saxofone tocados ao vivo, a melodia otimista com nuances melancólicas e a riqueza do groove brasileiro, DIMAS consegue fugir da armadilha do pastiche retrô. O resultado é uma produção rica e visceral, em que as influências do passado servem de moldura para um eu-lírico moderno, vulnerável e abertamente confessional.
Nesta entrevista, o artista abre seu diário íntimo e detalha os bastidores da criação de “cinema tropical”. Em um papo honesto, DIMAS reflete sobre a dor de cotovelo como combustível para a composição, a escolha de locações autobiográficas para o videoclipe e como o seu olhar apaixonado por São Paulo continua a dar o tom de sua identidade musical.
Você citou o Kid Abelha como a grande espinha dorsal de “Cinema Tropical”. Como foi o processo de filtrar a estética oitentista da banda sem deixar a música soar como um pastiche retrô, mas sim como algo contemporâneo?
Sempre há dois caminhos quando se faz uma música referencial, um é literalmente duplicar a produção de outrém e há o caminho de escolher certos elementos de produção vocal e musical que vão contribuir para essa atmosfera aliado à sua identidade. Uma coisa que sempre tento manter em todas as minhas músicas é a maneira de cantar e escrever, pois isso é só meu e, também, um grande mix de referências de todos os lugares. Do Kid Abelha queria o saxofone, a melodia otimista mas ainda assim melancólica e a elegância sonora; E acho que tudo isso se somou ao meu jeito de cantar e a narrativa metafórica que é mais minha do que da banda, além de adicionarmos sintetizadores muito específicos e outras assinaturas que já vinham do meu repertório.
O saxofone é uma marca registrada do pop dos anos 80 e ganhou destaque na sua faixa. Como foi trabalhar esse arranjo para dar aquela “ginga” brasileira que você mencionou?
É um amor antigo. Sempre quis trazer saxofones e instrumentos de sopro num geral pro meu trabalho pois várias das minhas músicas favoritas são ricas nisso. Acho que já tínhamos bebido do groove da bossa nova e do synth oitentista na pré-produção e senti que esse toque brasilierio-tropicaliente viria com o saxofone, ao qual chamamos o Pedro Lucena para tocar e gravar tão brilhantemente. Tínhamos a opção de fazer computadorizado, mas eu priorizo o orgânico e feito à mão em toda minha produção.
Por que “Cinema Tropical” foi a escolhida para ser a porta de entrada do álbum baby blue em vez de outra faixa do repertório?
Acho que o que vem a seguir é uma grande mudança de rota, são músicas com congas, atabaques, um novo jeito também de narrar certas coisas e com uma influência muito forte de Djavan, Jorge Vercillo e Marisa Monte. Uma vibe ao vivo, acústica, muito particular da MPB contemporânea. Não queria assustar quem me acompanha logo de vez, e quis retomar o que já fiz com “Minha Vitrola Toca Rita” lá em 2023: Uma maneira de lembrar os fãs de que essa vontade sempre esteve aqui e que a brasilidade nesse nível não me é estranha. Não gosto de fazer mudanças bruscas, principalmente após a pausa de meses que tirei.
Converter um “amor de foguete” que durou 3 meses em música é algo muito comum no pop. Acredita que a dor é o melhor combustível para criar hits grudentos?
Acho. Certas inspirações só vão surgir com a intensidade da vida batendo na pele. Como uma pessoa muito visceral, me parece a união perfeita de elementos, e acho que a dor te deixa criativo pois você precisa sobreviver e encontrar saídas para isso.

Como a estética do videoclipe complementa essa atmosfera dramática e nostálgica que você construiu na sonoridade da música?
Tendo a cinematizar minha vida. Por isso o título. As fotos e o vídeo foram feitos em um dos últimos lugares que me encontrei com a pessoa musa da obra. Na capa e no vídeo bebo o mesmo vinho que bebemos, estou em meio ao parque no mesmo horário, usando o óculos que havia emprestado neste fatídico dia. É tudo intencional.
O que o público pode esperar do universo de baby blue em termos de sonoridade e conceito visual?
Muito azul. risos. Mas creio que uma estética bem paulistana com a cidade de fundo (algo que priorizo nos meus trabalhos). Uma sonoridade majoritariamente contemporânea da MPB brasileira com alguns toques do pop que sempre fiz. É uma viagem pelo meu diário íntimo e muito mas muito confessional.
