Entrevista | Irmãos Bicho falam sobre “Conversa de Elevador”, influências de BH e os desafios da cena independente

Formado pelos irmãos gêmeos Clara Bicho e Gabriel Campos, o duo mineiro Irmãos Bicho faz sua estreia oficial com o single “Conversa de Elevador“. A faixa antecipa o primeiro álbum de estúdio da dupla, previsto para o próximo ano, e consolida uma parceria construída nos palcos e moldada por uma vivência compartilhada desde a infância em Belo Horizonte.

Com sonoridade que transita entre o indie pop, o rock alternativo e a tradição da música mineira, o lançamento conta com a coprodução de Bernardo Bauer e Felipe D’Angelo (integrantes da banda Moons). A faixa traz versos que ressignificam a ideia de “conversa de elevador” — expressão associada a papéis superficiais — para construir uma metáfora sobre recusar caminhos automáticos e buscar o próprio movimento.

Além da composição e dos arranjos, os artistas centralizam a direção artística, a comunicação e os figurinos do projeto, entendendo imagem e som como partes indissociáveis da mesma obra. O duo acumula bagagem em trajetórias individuais consolidadas na cena independente, com lançamentos solo e participações em festivais e projetos de destaque nacional.

Em entrevista, Gabriel e Clara detalham como a convivência de quase 25 anos facilitou a transição dos palcos para o estúdio e contam a rotina de conciliar outros empregos para financiar a música autoral. O duo explica como a produção no Estúdio Cais equilibrou suas referências com a essência mineira, reflete sobre a autonomia na criação de seu universo visual, revela que a necessidade de criar é o verdadeiro motor de suas carreiras e compartilha os artistas que preenchem suas escutas atuais.

Confira a entrevista na íntegra:

Vocês já tinham uma parceria construída nos palcos antes de entrarem juntas como duo no estúdio. Como foi o processo de oficializar os Irmãos Bicho e como essa vivência prévia facilitou a criação de Conversa de Elevador?

Gabriel: “Oficializar os Irmãos Bicho” ocorreu naturalmente. A gravação deste disco serviu como um marco natural da nossa parceria, porque a gente sempre mencionava a possibilidade de gravar um álbum juntos. O “Irmãos Bicho” foi sendo oficializado a cada noite que a gente saía do trabalho e entrava no estúdio juntos pra gravar. No entanto, sempre foi muito mais do que uma gravação de um disco: é pedaço dos nossos quase 25 anos de vida como irmãos gêmeos. O “Irmãos Bicho” foi sendo oficializado e materializado para os outros com nossas gravações no Estúdio Cais, mas pra gente sempre existiu de algum modo.

“Conversa de Elevador” é uma composição da Clara. Já tocamos ela em shows e por sinal é a composição dela que eu mais gosto de tocar ao vivo. É uma música com uma energia vital boa. Tem uma pulsão de vida. No estúdio tentamos (e acho que conseguimos) trazer pro fonograma essa vida que essa composição da Clara merece. O ambiente do Estúdio Cais nos ajudou a trazer essa energia: tivemos uma conexão muito boa com Felipe D’Angelo e Bernardo Bauer, produtores do disco. Isso tudo ajudou.

O single ressignifica uma metáfora do cotidiano para falar sobre recusar a estagnação e escalar os próprios prédios. De que forma essa mensagem sobre construir o próprio caminho reflete os desafios de vocês como músicos independentes no cenário atual?

Clara: Acho que ser músico independente deve ter sido sempre difícil. Falando sobre o nosso caso: somos artistas que não conseguem ficar sem fazer arte. Mesmo tendo várias dificuldades de falta de tempo, de dinheiro e o cansaço da rotina de outros trabalhos, persistimos construindo nossas carreiras da melhor forma que conseguimos. É coisa tipo: ensaio quase à meia noite e depois acordar às 6:00 para ir para outro trabalho, sair do emprego que cobre os gastos da música e ir direto fazer um show. É complicado, estamos ajustando melhor as coisas com o tempo, mas acho que ser músico independente é essa ralação de “escalar os prédios” mesmo.

A sonoridade do duo mistura indie pop e rock alternativo com nuances da tradição musical mineira. Como foi trabalhar com Bernardo Bauer e Felipe D’Angelo na produção para encontrar o equilíbrio entre o contemporâneo e essas referências de BH?

Gabriel: Gravar no Estúdio Cais foi muito bom. Eles entenderam o resultado que a gente queria atingir, porque sabem produzir um pouco de tudo.

Felipe foi pianista do Lô Borges por muitos anos, fez turnês com ele, Beto Guedes e Flávio Venturini. Bernardo também sempre esteve no meio da música mineira, seja com sua banda Pequeno Céu ou Moons (e por aí vai). Apesar disso eles têm um som moderno, mas que você escuta e percebe que é mineiro… E nós gostamos muito disso. Não podemos deixar de mostrar de onde somos na nossa música.

Quanto às nossas outras referências que fogem da música mineira, também são indispensáveis pra gente. Nós escutamos muita coisa… desde indie pop, MPB, samba ou até grunge. Eu até tenho uma banda de rock por sinal. Não temos a intenção de ser cópia de ninguém.

Vocês centralizam praticamente todo o processo criativo, da composição e arranjos até os figurinos, direção artística e comunicação. Como funciona essa dinâmica em dupla e qual a importância de controlar todo o universo visual e narrativo do projeto?

Clara: A gente funciona muito como uma dupla criativa mesmo. Como somos irmãos gêmeos, existe uma liberdade muito grande para trocar ideias, discordar, experimentar e ir construindo as coisas juntos. Não há uma divisão muito rígida de funções: às vezes uma ideia começa comigo e o Gabriel desenvolve, às vezes acontece o contrário, e muitas coisas vão surgindo naturalmente no processo.

Para nós, a música nunca está totalmente separada da imagem. O figurino, a direção artística, os personagens, os clipes e a própria comunicação fazem parte da obra e ajudam a contar a história que queremos. Por isso, participar de todas essas etapas é muito importante. Acaba sendo também uma consequência de sermos artistas independentes e não termos uma grande equipe por trás (neste lançamento é a primeira vez que contratamos uma assessoria de imprensa invés de fazermos sozinhos, por exemplo).

Não é tanto uma questão de querer controlar tudo, mas de conseguir construir uma linguagem que seja coerente com o que estamos fazendo musicalmente. O Irmãos Bicho é um universo que está sendo criado por nós, e acho que essa autonomia é justamente o que faz ele ter uma identidade tão única.

Conversa de Elevador faz a provocação: “Qual o motor da sua vida?”. O que hoje funciona como o principal combustível para vocês continuarem apostando na música autoral?

Clara: Essa coisa da música autoral é inevitável para nós porque ambos somos compositores. Então, tudo que fazemos é autobiográfico, falo isso, no meu caso, não só sobre as minhas músicas (melodia e letra) mas sobre todo o “universo bicho”, com os clipes e personagens. Tanto eu quanto o Gabriel somos pessoas que criam coisas naturally, então fazer música autoral acaba sendo natural. Sei bem as dificuldades, sobretudo no cenário independente. É muito complicado colocar suas ideias no mundo. Custa muito tempo, dinheiro e esforço. Mas o principal combustível é mesmo o fato de que eu não consigo parar de criar arte. Eu não vejo sentido na vida se eu não puder criar. Minha cabeça não para.

O single marca a estreia do duo e prepara o terreno para um LP previsto para 2027. O que o público pode esperar desse conceito e do universo musical que vocês estão construindo para o álbum?

Clara: O “Irmãos Bicho” acabou sendo um projeto que mistura bem várias referências, tanto dos nossos trabalhos solo, quanto de inspirações da vida toda. Tem muito do indie que a gente já fez, no rock alternativo e no pop, mas tem muita influência da uma MPB ali dos anos 60/70/80, sobretudo referências regionais de Minas, como o Clube da Esquina, principalmente. Em algumas músicas, referência X é mais óbvia, em outras referência Y e por aí vai. O mais legal é pensar que, mesmo com esse tanto de inspiração mistura, ainda ficou bem “bicho”.

E para finalizar, sempre deixamos essa perguntinha: qual a #SuaSetlist favorita do momento? O que vocês mais tem escutado?

Clara: Algumas coisas que ando escutando muito: Caetano Veloso, The Last Shadow Puppets e Tribalistas.

Gabriel: Ando escutando o disco do João Carvalho, lançado neste ano, também várias do Ítallo França e assistindo algumas gravações ao vivo, como o “Live at the Paramount” do Nirvana.

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