Entrevista | Nay Porttela fala sobre o resgate de sua identidade artística, Brasília e o lançamento de “Plano B”

A cantora e compositora goianense Nay Porttela acaba de lançar o single “Plano B”, antecipando seu quarto álbum autoral previsto para o início do próximo ano. A faixa, de tom emotivo e sonoridade sofisticada de samba-jazz, canta a coragem de se reestabelecer diante do desconhecido e homenageia o período em que a artista morou em Brasília, momento marcado pelo seu reencontro definitivo com a criação musical.

Com direção musical assinada pela própria artista, a produção equilibra um arranjo minimalista — unindo violão na linguagem de João Gilberto, piano econômico, contrabaixo e bateria — com uma estética visual cuidadosamente planejada. Formada em moda e fascinada pela arquitetura de Oscar Niemeyer, Nay desenhou em croquis os figurinos do projeto no Plano Piloto antes mesmo de compor as canções, integrando moda, imagem e arquitetura em uma mesma pesquisa artística.

Conhecida por sua voz suave e parcerias plurais com nomes da França, Japão e Vietnã, além do sucesso de faixas como “Beija-Flor”, a cantora expande seu universo estético no novo projeto. Acompanhada por um lyric video no YouTube e disponível em todas as plataformas de streaming, “Plano B” marca uma transição madura e profunda na trajetória da intérprete.

Em entrevista, Nay Porttela revela detalhes sobre o processo de “anamnese” e resgate da própria identidade musical após um trauma familiar e seis anos longe dos instrumentos. A artista comenta como a efervescência cultural de Brasília impulsionou sua coragem de subir aos palcos, explica o inédito processo criativo em que a arquitetura e os figurinos antecederam as composições, detalha a construção do arranjo de “Plano B” focado no silêncio e nas formas modernistas, e reflete sobre suas trocas internacionais e a curadoria de sua setlist atual.

Confira a entrevista na íntegra:

O single Plano B retrata seu reencontro com a música após cerca de seis anos afastada. Como foi esse momento de “anamnese” ao perceber que precisava resgatar essa parte tão importante da sua identidade?

Sabe aquela perda natural das memórias ao longo do tempo? Ninguém é capaz de recordar, com exatidão, tudo o que viveu; todos estamos sujeitos a essa erosão da memória autobiográfica.

O que aconteceu comigo é que a música sempre esteve presente na minha vida desde a infância, mas nunca foi algo profissional. Fazia parte da minha formação como indivíduo, tocar teclado e cantar minhas músicas preferidas.

Mas a vida foi acontecendo e cobrando de mim. A gente vira adulto, e aquilo que era prazer na infância acaba sendo deixado para trás. Fui “ganhar” a vida adulta e, com ela, vieram a formação em Moda e alguns trabalhos na área.

Assim como o esquecimento transiente pode decorrer tanto da passagem do tempo quanto de fenômenos traumáticos, no meu caso o retorno anamnético aconteceu após a partida inesperada da minha mãe desta vida. Nada mais fazia sentido. Foi justamente depois desse trauma que me senti encorajada a dar uma chance a esse novo caminho na minha vida.

Em 2017, fui morar em Brasília, e minha vida mudou muito. Passei a frequentar teatros, museus e shows com muito mais frequência. Uma epifania cultural me consumiu até que, em um dia comum, de repente, uma lembrança emergiu subitamente: uma reminiscência involuntária de uma identidade que eu havia escondido.

Reencontrei a minha própria versão, aquela cuja existência eu sequer imaginava ter esquecido. Comecei a me gravar, a publicar nas redes, e foi ali que tudo começou.

No verso “A queda livre que é ser jovem”, você traduz o sentimento de se lançar ao desconhecido. De que forma sua mudança para Brasília em 2017 deu a coragem necessária para você redefinir o seu próprio caminho?

A vida cultural em Brasília é incrível. Aprendi muito no Planalto Central: fiz aulas de pandeiro no Clube do Choro, assisti a shows preciosos, como os de Nilze Carvalho, que mais tarde se transformou em uma amizade, visitei exposições profundas no Museu Nacional e no CCBB e me emocionei com peças de teatro na Caixa Cultural.

Mas foi no Clube da Bossa Nova que subi ao palco e me descobri. Cantando Tom Jobim, senti que era assim que eu me comunicaria dali em diante: cantando. Passei por uma irrupção da consciência com tanta informação cultural me encorajando a ser mais criativa e mais comunicativa.

Sendo formada em moda e apaixonada pela arquitetura de Oscar Niemeyer, você desenhou os figurinos antes mesmo de compor a música. Como funciona esse seu processo criativo onde a imagem e a arquitetura antecedem o som?

Foi a primeira vez que recorri a esse método para conceber minha música, como uma forma de evitar receitas repetidas do universo da MPB na minha produção musical. A inspiração na arquitetura de Niemeyer manifestou-se nas formas, curvas e retas de suas obras, que inspiraram meu croqui de figurino para o visual do álbum. Desenvolvi os looks de modo que, ao me movimentar, o tecido reproduzisse as mesmas formas, curvas e retas presentes nos monumentos do arquiteto.

A direção de imagem é assinada por Rodolfo Ruben, que imprime ao meu trabalho um olhar orgânico e de grande sensibilidade. Já as músicas tiveram sua origem nas imagens desse ensaio e nos registros audiovisuais realizados por Dennes Ferreira.

A partir da observação de todo o conjunto visual, fui direcionando as músicas, gravando os instrumentos e inserindo a voz, acompanhando cada imagem e cada forma que inspiraram a produção dessas músicas.

A faixa conta com arranjos refinados de samba-jazz e violão inspirado na linguagem de João Gilberto. Como você trabalhou a direção musical do single para alcançar essa sonoridade sofisticada e minimalista?

A direção musical de Plano B nasceu da ideia da arquitetura modernista de Niemeyer que eu levei pro minimalismo da minha música. Eu queria que cada instrumento tivesse função estrutural, como na arquitetura de Oscar Niemeyer: o espaço vazio, é o silêncio na minha música e a proporção também constroem a obra.

A linguagem do violão de João Gilberto é uma referência fundamental nas minhas músicas em geral, não como citação, mas como princípio estético. Busquei um toque econômico no piano como Tom Jobim diria, preciso e profundamente rítmico, deixando a voz ocupar o primeiro plano com naturalidade. Os arranjos de samba-jazz surgem justamente desse equilíbrio entre sofisticação arquitetônica e harmônica e economia de gestos e linhas no caso do desenho técnico do arquiteto e no caso da música na mixagem musical. A linguagem de Plano B é de uma sonoridade que constrói uma arquitetura poética.

Você já construiu parcerias internacionais marcantes (com nomes da França, Japão e Vietnã) e viveu o sucesso de ter a faixa Beija-Flor viralizada em uma trend sobre amizade. De que maneira essas trocas plurais influenciam sua visão artística hoje?

Trabalhar com artistas da França, do Japão e do Vietnã consolidou dentro de mim uma convicção latente de que a música brasileira constitui uma linguagem universal, capaz de ultrapassar fronteiras sem abdicar da identidade cultural. Essas colaborações só ampliaram minha consciência e reafirmaram meu compromisso de projetar a música popular brasileira em comunicação com diferentes tradições culturais, assim e eu posso construir uma sonoridade que toca tanto no Brasil quanto em outras partes do mundo.

Plano B antecede o seu quarto álbum de estúdio autoral. O que o público pode esperar desse projeto completo em termos de estética, narrativas e pesquisa musical?

O conceito do meu próximo álbum é o mais profundo que já desenvolvi. Ele representa o caminho que escolhi seguir entre todas as veredas que percorri nos trabalhos anteriores, tanto na construção da minha sonoridade quanto na mensagem que desejo oferecer ao mundo. Toda a sua estética nasce da arquitetura modernista de Oscar Niemeyer e do minimalismo musical.

E para finalizar sempre deixamos essa perguntinha: qual a #SuaSetlist favorita do momento? O que você mais tem escutado?

Eu começo sempre com Maria Bethânia, com a música “Samba da Bênção”, do álbum Quanta Falta Você Me Faz. Depois, vou para Nilze Carvalho, com a música “Ele Pensa”, do álbum Estava Faltando Você. Em seguida, vou para Mari Froes, com a música “Se Eu Nunca Mais Lhe Ver”, do álbum Esquina do Sol. Chegando a Liana Flores, escolho “So It Goes”, do álbum de mesmo nome. Da deusa Mariene de Castro, coloco a música “Todo Seu Querer”, do álbum Maria da Canção. E finalizo com Maria Luiza Jobim, com a música “Boca de Açaí”, do álbum Azul.

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