Entrevista | Conversamos com a Sistah Mari sobre  “Ascender”, o segundo álbum da sua trilogia

“Ascender” é o novo álbum de reggae da Sistah Mari e vem para elevar, ocupar novos espaços de poder e erguer a comunidade. O trabalho, já disponível nas plataformas digitais, faz parte da trilogia de lançamentos da singjay dedicada à evolução, resistência, transformação, colheita e partilha. Neste sábado (10), a cantora se apresenta com o show de lançamento na Okupação Cultural Coragem, e logo depois, no dia 28, na Galeria Olido, em São Paulo.

Na cultura do reggae, muito se usa as palavras “ascender” e “acender” para denominar  algo que ilumina a mente, traz luz para os problemas sociais e ateia fogo contra o sistema que oprime. Sistah Mari escolheu aperfeiçoar esse tema com uma metáfora sobre o crescimento humano dividindo-o em três fases: no primeiro álbum “Evoluir”, aborda o começo onde você precisa criar uma base e mudar por dentro, para depois, “Ascender”, onde ganha asas para alcançar o topo e iluminar o mundo. E só aí, levar o seu feito para a comunidade.  

Você acaba de lançar seu segundo álbum, que faz parte de uma trilogia, iniciada com “Evoluir” e que agora chega a “Ascender”. O que muda de um álbum para o outro?

Existe uma mudança fundamental entre os dois álbuns , com o foco temático e na jornada espiritual e social da trilogia conceitual. Enquanto o primeiro trabalho representa um mergulho interno, o segundo simboliza a expansão e a conquista de espaço dentro do Reggae BR. 

A Sistah Mari também se transforma nesse processo? O que “Ascender” revela sobre você que talvez ainda não estivesse em “Evoluir”?

Com certeza, eu estou passando por uma profunda transformação pessoal e artística nesse processo. Evoluir foi o alicerce, Ascender atua como um espelho que revela camadas mais maduras e imponentes.

O álbum passeia por diferentes vertentes do reggae. Como foi explorar esses diferentes ritmos e sonoridades dentro do projeto?

Como cantora, compositora e também  uma das produtoras no projeto, eu quis usar a pluralidade dos ritmos jamaicanos para guiar a narrativa de elevação do próprio disco. Essa caminhada sonora se desdobrou em aspectos fundamentais: dub,cumbia,steppa, uma mistura de brasilidades  uma junção de tudo o que eu gosto de ouvir.

A primeira faixa do álbum é instrumental e uma homenagem a um grande amigo. Quem foi ele?

Meu melhor amigo que sempre me incentivou… Era professor, um amante da música reggae.. um paizão exemplo a ser seguido…. Fez sua passagem e como forma de amor e carinho eternizei ele em uma instrumental. 

Em “Ascender”, a ideia de colheita e partilha com a comunidade também aparece como um elemento importante. O que esses conceitos significam para você?

No reggae, a ascensão nunca é uma corrida solo. Subir ao topo e esquecer a base não é evoluir. A partilha significa abrir caminhos para que outros também possam subir. É usar o microfone, a visibilidade e o espaço conquistado para ecoar as vozes da quebrada, fortalecer a rede de produtores locais e mostrar que a verdadeira riqueza só existe quando ela é distribuída e celebrada em comunidade.

São quase 20 anos de carreira. Como você enxerga o reggae atualmente? Na sua visão, o gênero ainda precisa ocupar mais espaços?

Olhando para trás e vendo essa caminhada de quase duas décadas, enxergo o reggae nacional hoje em um momento de muita maturidade, resistência e renovação. A cena de Sound System, especialmente nas periferias e nas quebradas de São Paulo, provou que o gênero não é um modismo, mas sim um movimento cultural e social de base muito sólido. O reggae atual é forte, autônomo e altamente profissionalizado, mas a resposta para a segunda pergunta é um eco definitivo: sim, o gênero ainda precisa ocupar muito mais espaços.A ocupação de novos espaços se faz necessária. 

O reggae no Brasil ainda enfrenta barreiras invisíveis na grande mídia, em grandes festivais de música geral e nos circuitos comerciais de rádio e TV. Muitas vezes, o gênero é empurrado para nichos específicos. O reggae precisa ocupar os palcos principais, os horários nobres e as grandes premiações, mostrando que sua qualidade técnica e apelo popular dialogam com qualquer público.

Quais artistas e referências foram importantes para a construção da sua identidade musical ao longo desses anos? 

A construção da identidade de Sistah Mari ao longo desses quase 20 anos de estrada bebe de fontes profundas, unindo os alicerces jamaicanos, o peso da cultura de rua de São Paulo e o poder de grandes vozes femininas. Talvez a maior referência não venha de um disco, mas sim do asfalto. Crescer no Jardim Colorado (comunidade do Primavera, em Itaquera) e rodar os sistemas de som periféricos de São Paulo moldaram sua lírica. Os seletores locais, os bailes de rua e a necessidade de projetar a voz em caixas de som pesadas lapidaram sua identidade imponente.Ao amalgamar essas referências, ela conseguiu cruzar as barreiras geográficas, levando o sotaque e o peso da periferia paulistana para grandes palcos internacionais como o Rototom Sunsplash na Espanha.

Para fechar, qual a #SuaSetlist favorita do momento? O que você mais tem escutado?

Nesse momento é a minha música “Espelho de Rainha”, ela toca em uma profundidade minha. É como se fosse um resgate da minha identidade. E tenho recebido esses depoimentos de quem escuta.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *