Entrevista | A!RA fala sobre seu último lançamento, “Circo”, compartilha dicas para lidar com situações da vida e revela qual artista não sai do seu fone de ouvido 

A!RA é cantora, compositora e fonoaudióloga. Imersa desde cedo em uma mistura de estilos musicais, sua formação artística é marcada pela diversidade cultural de sua família e pelo seu olhar global. Com sonoridade eclética e letras intimistas, A!RA cria músicas que tocam o coração, acreditando que “a suavidade é a melhor forma de se conectar com as pessoas”. E é dessa forma que nasceu, “Circo”,, single que faz parte do seu primeiro álbum, previsto ainda para esse ano.  A canção recebeu um clipe, dirigido por Fernando Turri.

A letra de “Circo” começa com a referência da canção “A Casa” de Vinicius de Moraes, só que para A!RA, a casa não era nada engraçada ao – no começo da vida adulta – ter que dividir a moradia com pessoas que eram de um universo totalmente diferente do dela. A cantora e compositora se viu no ápice da impotência ao ter os seus limites constantemente ultrapassados. E foi quando a raiva transbordou que a artista converteu todo o sentimento em arte.

A música é leve, pop, e bem acompanhada pelo timbre de voz de A!RA. O clipe vem com uma pitada de humor e uma atmosfera caótica de uma pessoa vivenciando situações um tanto quanto fora do comum, dentro da sua própria casa, até o momento em que ela decide impor os limites e fazer com que ela volte com o controle da situação. E não importa se as pessoas vão te olhar como vilã por tomar as rédeas da sua vida. Esse também é o recado que a cantora traz para quem já viveu, ou ainda vive, circunstâncias parecidas.

Em “Circo”, você transforma uma situação bastante difícil em uma música leve e com um clipe bem-humorado. A A!RA costuma encontrar esse equilíbrio entre falar e viver algo doloroso e, ao mesmo tempo, conseguir rir da situação no dia a dia?

Eu acredito muito que quando a gente ri de uma situação que nos machucou, quando a gente tem a capacidade de olhar para algo que foi muito doloroso e levar como aprendizado, de levar como realmente parte da nossa história, às vezes sair de dentro do nosso próprio corpo e tentar olhar de um lado de fora, a gente consegue achar um pouco de comédia em cada tragédia, sabe? E eu realmente tento levar a vida desse jeito porque, no final das contas, são histórias que a gente acumula, são histórias que a gente consegue construir na nossa própria narrativa, na nossa própria vida, e pra mim a vida fica muito mais leve. Eu consigo tirar um aprendizado muito melhor quando eu tento levar pro lado da comédia, pro lado do humor. Eu acho que é uma forma da gente conseguir realmente aproveitar a vida, sabe? E realmente tirar o aprendizado da melhor forma possível.  Eu realmente acredito que quando a gente tem a capacidade de rir de uma situação é porque essa situação não comanda mais a nossa vida. Então, eu quero ser essa pessoa que não é elevada, sabe, não se desestabiliza por situações ruins. Que ok, que sente, que chora, mas que é capaz de olhar para algo que machucou e rir daquilo, porque perde o peso. Você não dá poder, porque quando você é capaz de rir de uma situação, você tira o poder da mão daquela situação e assume as próprias rédeas.

Como compositora, o que mais te inspira a escrever? De onde vêm as ideias para as suas músicas?

Bom, durante muito tempo eu me inspirei muito nas histórias dos outros, então muitas pessoas vinham me contar coisas que tinham acontecido com elas e eu me via naquela situação, tentava me enxergar naquela situação e escrevia como se tivesse acontecido comigo. Mas recentemente, né, desde a música “Simples Assim”, na verdade, que eu comecei a contar muito mais histórias minhas. E hoje em dia, o que mais me inspira a escrever minhas músicas são minhas próprias histórias, são minhas próprias vivências, coisas que eu vejo, coisas que eu sinto. E isso tem me conectado com uma arte muito mais conectada comigo, eu consigo me ver muito mais no meu trabalho e criar algo muito mais real, tanto para mim quanto para as outras pessoas. E isso vai estar muito presente no meu primeiro álbum, que é praticamente uma trajetória de vida.

O que “Circo” revela sobre o seu primeiro álbum? Como está sendo essa fase de construção e produção do disco?

“Circo” é uma virada de chave muito grande na minha vida e é uma virada de chave que eu sinto que eu precisava, toda a tensão ser aliviada de uma forma cômica de você conseguir assumir os seus defeitos, conseguir encarar a sua sombra e falar isso aqui faz parte de mim ao invés de simplesmente recusar, simplesmente fingir que não existe, isso torna as pessoas muito mais potentes, quando elas conseguem abraçar todas as suas faces, todos os seus lados e usar isso como algo forte, usar isso como força, se apoiar nisso e assumir quem realmente é, e “Circo” foi uma grande virada de chave pra mim, porque no final das contas ninguém quer sair como vilão de história nenhuma, mas às vezes o simples fato de você assumir quem você é já te coloca nesse lugar. A fase de construção da produção do meu álbum, estou trabalhando com profissionais maravilhosos. Todas as músicas foram escritas, o álbum já está todo construído e a gente está correndo com as produções. Tem muita gente boa envolvida nesse projeto e eu estou muito ansiosa para poder lançar.

Seu primeiro lançamento foi em 2021. Antes disso, você já trabalhava com música? Conta para a gente como decidiu ser cantora e compositora. Essa decisão tem alguma relação com a experiência que inspirou “Circo” e com a sua fala sobre “usar a voz do jeito certo”?

Meu primeiro lançamento foi em 2021, e não, eu não trabalhava com música. Foi muito interessante, eu sempre quis ser cantora, sempre escrevi, mas eu não sabia como começar. E eu sabia que o tipo de coisa que eu canto, o tipo de música que eu faço, não seria uma música que, por exemplo, em qualquer lugar eu conseguiria cantar e conseguir um público, sabe? Eu sei que, por exemplo, se eu começasse a cantar no barzinho as músicas que eu canto, naturalmente, talvez o público não se interessaria. Então eu tive que criar meu espaço na internet mesmo, com o que eu tinha na minha mão, comecei em 2020, no meio da pandemia, tinha um celular bem antigo e muita força de vontade. E eu não sabia tocar nenhum instrumento, até hoje eu tenho bastante dificuldade com isso, meu foco é mais composição, escrita e canto. E aprendi o ukulele porque era a única coisa que eu sabia tocar. E comecei a fazer covers na internet com o ukulele, tocando muito mal. E meu objetivo sempre foi chegar nos autorais, poder lançar os autorais, as pessoas ouvirem esses autorais. E em 2021, lancei minha primeira música, “Eu Não Quero Mais Dormir”, que foi feita para um trabalho na faculdade e a galera gostou muito! Agora, a decisão de compor tem muito a ver sim com a música “Circo”, mas eu acho que tem muito mais a ver com uma vontade, na verdade é uma necessidade que eu tenho de expressar as coisas que eu sinto, porque eu sou uma pessoa que tem a tendência de guardar muita coisa. Eu observo tudo, eu sinto muito as coisas ao meu redor, muito, muito, muito, e eu tenho muita dificuldade em externalizar isso. E a arte para mim é uma forma de catalisar tudo, tudo que está guardado, tudo que está me machucando e conseguir te colocar para fora mesmo, porque a nossa voz é a nossa maior força. Então se eu não conseguir verbalizar, se eu não conseguir colocar para fora o que me machuca, isso vai me matar por dentro. Então o circo é realmente um catalisador, eu realmente consegui virar a chave de falar nossa, eu preciso me impor, eu preciso falar o que me machuca, enquanto está me machucando, não guardar aquilo para ficar remoendo e remoendo e remoendo. E, sabe, viver presa a algo que me machuca. Então, a nossa voz é sim nossa maior força, eu realmente acredito muito nisso. E eu pretendo, é uma meta de vida mesmo, poder usar sempre a minha voz do meu jeito certo, que é assumindo minha própria verdade, vivendo de acordo com minha própria essência.

Quem é a A!RA? Como você se apresentaria para quem ainda não conhece o seu trabalho?

Essa pergunta é muito interessante porque a gente nunca sabe exatamente quem a gente é, a gente vive para descobrir e o nosso objetivo, eu realmente acredito que o nosso maior objetivo de vida é poder se conhecer ao longo da vida e quando a gente realmente se conhece, talvez leve a vida inteira, talvez aí sim a gente tenha conseguido atingir esse objetivo mas para quem não conhece meu trabalho, saiba que a Aira é uma pessoa que tem buscado, da forma mais honesta, mais verdadeira possível se encontrar e ao longo dessa caminhada trazer histórias reais, contar vivências reais eu não quero usar nenhuma máscara com quem me escuta, quem escuta meu trabalho está conversando com a minha alma e é isso que vocês vão encontrar no meu trabalho, se vocês quiserem algo real, às vezes um pouco desconfortável. Tem coisas que a gente fala que não são tão confortáveis, tem coisas que a gente assume que não são tão confortáveis. Você vai encontrar no meu trabalho.

E para finalizar, sempre deixamos essa perguntinha: qual a #SuaSetlist favorita do momento? O que você mais tem escutado?

Eu tenho que falar com esse artista porque eu vou no show dele, que é o Milo J. Eu sou muito fã. Esse último álbum dele, “La Vida Era Más Corta” é maravilhoso! Foi o álbum que eu mais ouvi esse ano. Jota.pê, que é um artista que eu sou muito, muito, muito, muito fã. E a Rosalia, que eu também tô obcecada por “Lux” desde o ano passado, eu escuto todos os dias. São artistas que no momento não estão saindo do meu fone de jeito nenhum.

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