Reconhecido como um dos maiores prodígios do contrabaixo mundial, Michael Pipoquinha sempre falou através das cordas. De parcerias com ícones como Djavan e Gilberto Gil a uma discografia instrumental consolidada, o músico cearense construiu uma carreira pautada pelo virtuosismo e pela técnica impecável. No entanto, ao celebrar seus 30 anos de vida, Pipoquinha decide abrir uma nova janela em sua trajetória: o foco agora se desloca do instrumento para a palavra e a canção, revelando um artista que busca uma conexão mais direta e visceral com o público.
O novo single, “Mamãe Luiza”, é o marco inicial dessa transformação. A faixa nasceu de um momento de vulnerabilidade, após uma visita de apoio de sua mãe que se transformou em melodia e agradecimento. Com uma sonoridade que une as raízes brasileiras às influências africanas — contando inclusive com a participação especial do mestre camaronês Richard Bona — a música é um convite festivo e íntimo, onde o baixo deixa de ser o único protagonista para dar lugar à voz que canta o amor e a gratidão.
Nesta entrevista, Pipoquinha nos conta como foi o desafio de “deixar o instrumento em segundo plano” para assumir sua própria voz e como a maturidade o levou a querer derrubar as barreiras da música instrumental. Entre reflexões sobre a família, a identidade cearense e as celebrações de suas três décadas de vida, o músico revela um lado mais humano e acessível, provando que, para quem domina a técnica, o maior desafio — e a maior recompensa — é conseguir chegar, sem intermediários, ao coração do ouvinte.
Você é mundialmente reverenciado pelo seu domínio técnico no contrabaixo. Como foi o processo interno de “deixar o instrumento em segundo plano” para dar protagonismo à voz e à palavra em “Mamãe Luiza”? Sentiu-se vulnerável ao usar a voz como ferramenta principal?
Na verdade, o plano é sempre fazer música com os dois atuando na mesma frequência. É claro que a voz, com a letra, tem muito mais destaque, mas eu gosto de pensar em mim por inteiro fazendo música, tanto no baixo quanto na voz. E tem sido incrível o aprendizado que isso traz. Amo os processos de aprendizagem que a música me proporciona, e é por isso que continuo me desafiando e abrindo mais janelas.
A canção nasceu de um momento de apoio materno e fragilidade emocional. De que forma essa conexão tão íntima com sua mãe moldou a sonoridade da faixa? Você acredita que a música teria a mesma leveza e ritmo se tivesse sido escrita em outro contexto?
Acho que sim, porque a representatividade que a minha mãe tem na minha vida é muito grande. Então eu tenho motivo para escrever um milhão de músicas para ela, mas esse momento foi muito importante para entender o quanto ela está comigo, do meu lado, em todos os momentos.
A faixa conta com a participação de Richard Bona, um ícone que também transita entre o virtuosismo no baixo e a canção africana. Como foi essa troca criativa e como você vê a conexão entre as raízes cearenses e as influências camaronesas nessa composição?
A troca foi muito sincera e fácil, porque na composição já tem muita influência da música do Bona. Eu pensei muito nele quando estava fazendo, então eu só fiz o convite, falei dos espaços que ele teria para cantar, e ele simplesmente mandou tudo pronto. Foi incrível.
Você mencionou o desejo de alcançar pessoas que não são necessariamente músicos ou ouvintes de jazz/instrumental. Para você, qual é a principal “barreira” que a canção com letra consegue derrubar e que a música instrumental às vezes impõe ao grande público?
Acho que a própria letra já quebra bruscamente essa barreira, porque as pessoas amam ouvir e se identificar com algum caminho que faça sentido para elas. Então a letra tem esse papel: chegar direto ao coração.
O Marco dos 30 Anos: Este álbum é descrito como o mais desafiador da sua carreira. Olhando para sua trajetória desde Cearencinho até agora, o que “Mamãe Luiza” revela sobre o Michael Pipoquinha homem e artista que completa três décadas de vida?
Relaciono essa minha nova fase à vontade de mexer de outras formas nas pessoas. Eu faço música desde pequeno e vi a forma como a minha música mexeu com muita gente, mas agora eu quero que mexa de um jeito diferente, e quero alcançar pessoas diferentes também, no sentido de amplitude mesmo. Então essa música e esse disco revelam tudo isso.
E para finalizar, qual tem sido a #SuaSetlist nos últimos dias?
Tenho escutado o mesmo de sempre: nossos heróis aqui do Brasil, como Djavan, Gilberto Gil, Dominguinhos, Gonzaguinha, Sérgio Ricardo, e muitos outros. E também coisas dos nossos vizinhos, como os argentinos Carlos Aguirre e Nahuel Pennisi, que eu amo muito.
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