Entrevista | Mariana Matsui mergulha no fluxo das próprias raízes com a releitura de “Kawa no nagare no yō ni” e reafirma sua identidade entre dois mundos

A cantora fala sobre a nova fase de sua carreira, os bastidores do single gravado com Lisa Ono e o amadurecimento que guia seu próximo álbum, unindo suas raízes nipônicas ao balanço brasileiro.

A música japonesa encontra o balanço brasileiro no mais novo projeto de Mariana Matsui. Nascida em Dourados (MS) e radicada em uma vivência que une São Paulo a Tóquio, a cantora e compositora nipo-brasileira escolheu um ponto de partida emblemático para sua nova fase: a releitura de Kawa no nagare no yō ni. O clássico de Hibari Misora, que reside no imaginário afetivo de gerações, ganha uma roupagem sofisticada de Jazz e Bossa Nova, servindo como o primeiro capítulo de um álbum que celebra a maturidade artística e pessoal da cantora.

Este lançamento não é apenas uma homenagem à ancestralidade, mas um encontro histórico de vozes. Ao lado de Lisa Ono, a maior referência da Bossa Nova no Japão, Mariana constrói um diálogo sonoro que transcende a distância geográfica entre suas raízes. Com produção do pianista Mao Sone, a faixa prepara o terreno para uma turnê por palcos icônicos de Tóquio, incluindo o festival La Folle Journée e a residência do embaixador do Brasil, antecipando o disco majoritariamente em português que chegará em outubro.

Entre a nova experiência da maternidade e a fluidez de uma carreira que se divide entre dois continentes, Mariana reflete sobre o “pertencer” e a beleza de se transformar conforme o fluxo da vida. Em uma conversa com a nossa redação, ela detalha o processo de desconstruir clássicos, a troca simbólica com Lisa Ono e como sua identidade bicultural molda cada nota de seu novo trabalho.

Confira agora a entrevista na íntegra:

“Kawa no nagare no yō ni” é um hino da música japonesa. Como foi o processo de desconstruir um clássico tão tradicional para trazê-lo para o universo do Jazz e da Bossa Nova sem perder a essência que atravessa gerações? 

Foi um processo muito especial e feito com muito respeito. “Kawa no nagare no yō ni” é uma canção profundamente marcante para a cultura japonesa, então, desde o início, a minha maior preocupação era preservar toda a emoção e a beleza que fazem dela um clássico atemporal. Ao mesmo tempo, quis trazer a música para um lugar que também refletisse a minha identidade artística. O Jazz e a Bossa Nova entraram de forma muito natural, como uma nova roupagem, sem alterar a essência da melodia e da mensagem. Acredito que reinterpretar um clássico é, acima de tudo, criar uma ponte entre diferentes gerações, e foi exatamente isso que busquei: honrar a tradição, ao mesmo tempo em que apresento essa canção através da minha própria voz e da minha vivência.

A Lisa é a maior referência de Bossa Nova no Japão. Como surgiu esse convite e qual foi o maior aprendizado ou troca simbólica que aconteceu entre vocês durante a gravação desse single?

Conheço o trabalho da Lisa há bastante tempo e sempre achei inspirador o papel que ela representa para a música brasileira no Japão. Em 2024, tivemos a oportunidade de nos conhecer pessoalmente em um show e esse ano, com a gravação do meu álbum, surgiu a ideia de gravarmos juntas, e ela ter participado foi um grande presente. Me sinto honrada de cantarmos juntas, e de sermos de gerações diferentes, mas transitando entre a cultura do Brasil e do Japão. 

Você mencionou que essa música sintetiza o encontro das suas raízes. Como é para você, como nipo-brasileira, usar a música para expressar esse sentimento de “pertencer a duas culturas” que geograficamente são tão distantes? 

A música entrou na minha vida antes mesmo de eu aprender a ler. Talvez por isso ela tenha se tornado, de forma tão natural, a minha linguagem, o instrumento que encontrei para me expressar, compreender quem sou e honrar as raízes que me formaram. Como nipo-brasileira, carrego dentro de mim duas culturas que, embora geograficamente distantes, coexistem de maneira muito próxima no meu coração e na minha vivência. A música me permite justamente criar essa ponte, onde celebro minha identidade, reconheço minha ancestralidade e encontro um lugar de pertencimento. 

A letra fala sobre o fluxo da vida, com suas curvas e mudanças. Como essa mensagem se conecta com o seu momento atual de carreira, especialmente agora que você se prepara para lançar um álbum majoritariamente em português?

Acho que essa mensagem tem tudo a ver com o momento que estou vivendo hoje. A vida está sempre em movimento, nos transformando, e eu sinto que estou em uma fase de muito amadurecimento.

Me tornei mãe no ano passado, e isso mudou completamente a minha forma de enxergar a vida, a música e até a mim mesma. A maternidade me trouxe mais força, mais sensibilidade e uma compreensão ainda maior sobre o que realmente importa.

Hoje, abraço muito mais as mudanças e confio no fluxo da vida. Sinto que estou vivendo um momento de crescimento, tanto pessoal quanto artístico, e isso se reflete naturalmente em tudo o que eu crio.

Ouça o novo single:

Você terá apresentações em locais icônicos, como o festival La Folle Journée e a residência do embaixador do Brasil em Tóquio. O que o público pode esperar dessa nova sonoridade que você está levando do Brasil para lá?

Estou muito animada por apresentar esse single ao vivo pela primeira vez, especialmente ao lado da Lisa. Vai ser um momento muito especial. E toda a turnê no Japão, agora no mês de maio, será uma oportunidade incrível de compartilhar essa nova fase da minha carreira com o público.

Além disso, esses shows serão como um gostinho do que está por vir — uma forma de aquecer e dar alguns spoilers dessa nova era que estou construindo, até a chegada do álbum completo, em outubro.

Este single é o início de uma nova etapa. O que você pode adiantar sobre o álbum que virá até o fim do ano? Ele seguirá essa mesma linha de fusão estética ou terá influências diferentes das que ouvimos agora?

Este single representa, sim, o começo de uma nova fase. O álbum seguirá essa mesma essência, trazendo essa fusão de influências que fazem parte da minha identidade, mas também explorando novas sonoridades e diferentes facetas minhas como artista.

Tem muito de amadurecimento, de transformação e das experiências que moldaram quem eu sou hoje, inclusive a maternidade, que trouxe uma nova profundidade para a minha forma de sentir e criar. Acho que o público pode esperar um álbum sincero e sensível, que passeia por diferentes emoções. 

E para finalizar, qual a #SuaSetlist favorita dos últimos dias?

Nos últimos dias tem tocado muito Marcos Valle e Towa Tei

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